Risco de Acidentes Domésticos

Em tempos de pandemia onde se faz alerta à sociedade para ficarem em casa e evitar ao máximo o contato com pessoas e aglomerações, não é à toa. O último lugar que as pessoas podem pensar em ir são os hospitais, que estão trabalhando no seu limite (e muitos já não tem mais leitos disponíveis) para atender pacientes infectados pela covid-19, e por esta razão, o risco de contágio cresce consideravelmente, e ir ao hospital neste momento não é uma decisão sensata, e somente em caso crítico.

Riscos de acidentes domésticos, por si só, já precisam ser minimizados e evitados em períodos de normalidade. Ninguém gosta de se acidentar. Em tempos de pandemia onde precisamos evitar ao máximo de ir a hospitais, precisamos redobrar a atenção dos riscos domésticos. As pessoas mais suscetíveis são os idosos e crianças, mas isso não quer dizer que pessoas jovens não possam se acidentar.

VULNERABILIDADES

Um ponto de partida que as pessoas podem fazer é caminhar por suas residências com um olhar crítico e buscando por pontos vulneráveis, ou seja, aqueles pontos que tem uma ameaça iminente que algum acidente possa ocorrer.

Para ir um pouco mais a fundo sobre o conceito de vulnerabilidade, podemos referir ao método FAIR (Factor Analysis Information Risk). Se não conhece o método FAIR, recomendo a leitura do artigo que passo por toda a sua ontologia.

Segundo o método FAIR, vulnerabilidade é “a probabilidade que uma ação de uma ameaça irá resultar em perda“. Na figura 1, é destacada a ontologia do FAIR no que se refere a parte de vulnerabilidade.

Figura 1 – Ontologia da Vulnerabilidade do Método FAIR

Para a compreensão da vulnerabilidade precisamos também definir o que é Threat Capability e Difficulty, que são componentes da vulnerabilidade e precisam ser analisados para conseguirmos definir o nível da vulnerabilidade.

De acordo com o método FAIR, Threat Capability (TCap) é “a capacidade de uma ameaça” e Difficulty (Diff) é “o nível de dificuldade que uma ameaça deve superar“.

Vejamos alguns exemplos:

Ao caminhar pela sua residência em busca de pontos de vulnerabilidades, você identifica que na escada que dá acesso ao terraço, o piso está sempre molhado (TCap) e que não há nenhum corrimão nas paredes ou frisos antiderrapantes, que poderiam ser seus possíveis Diffs. Neste caso, há uma grande vulnerabilidade que um acidente ocorra neste ponto.

As crianças pequenas brincam correndo de um lado para o outro dentro de casa, e você identifica que há armários com quinas (TCap), que se alguma criança escorregar e bater com a cabeça, poderá ter um grande acidente. Um grande ponto de vulnerabilidade. Para minimizar essa situação, você compra cantoneiras (Diff) para minimizar o trauma, caso ocorra.

Seus pais idosos moram em casa sozinhos, e mesmo em um cenário de pandemia, você resolve ir até a casa deles para verificar as vulnerabilidades (claro, se cercando de todos os cuidados e utilizando máscara e uso do álcool em gel ao chegar), e constata que na cozinha o fogão o botão de acionar o fogo não está funcionando e que sua mãe idosa está usando fósforo, e por ser uma pessoa de muita idade, demora muito tempo até conseguir acender o fósforo e com o gás aberto. A demora de riscar o fósforo é um TCap elevado, então você resolve comprar um acendedor de fogão elétrico (Diff) para reduzir essa vulnerabilidade.

ATUAÇÃO DIRETA NAS AMEAÇAS

Outra forma de se evitar os acidentes domésticos é atuando diretamente nas ameaças. Na seção anterior identificamos pontos de vulnerabilidades com seus componentes TCap e Diff. Como agora iremos atuar na ameaça, precisamos definir o que seja Threat Event Frequency (TEF), Contact Frequency (CF) e Probability of Action (PoA). Na figura 2 temos a ontologia do FAIR no que se refere a parte de ameaça.

Figura 2 – Ontologia do FAIR para ameaças

Segundo o método FAIR, Threat Event Frequency (TEF) é “a frequência provável em um determinado período de tempo, de que ameaças se materializarão e que possa resultar em perdas“; Contact Frequency (CF) é ” a frequência provável em um determinado período de tempo, de que ameaças entrarão em contato com aquilo que temos o objetivo de defender ou preservar“; Probability of Action (PoA) é “a probabilidade de uma ameaça pode agir sobre aquilo que temos o objetivo de defender ou preservar“.

Vejamos alguns exemplos:

No exemplo da seção de vulnerabilidades onde o primeiro exemplo foi a escada de acesso ao terraço, ao determinar que ninguém irá acessar ao terraço até que as Diffs (Corrimão e friso antiderrapante) sejam providenciadas é um caso de se evitar a CF, ou seja, a ameaça não entrará em contato com as pessoas, e consequentemente a PoA será zerada, já que como as pessoas não utilizarão a escada de acesso ao terraço, a probabilidade será nula.

Da mesma forma, os pais simplesmente poderão determinar e dar ordens as crianças que elas não poderão correr dentro de casa, que seria um caso de se eliminar o CF no caso de corrida, mas nada impede que alguém tropece e também bata em uma das quinas do armário. As crianças normalmente tem muita energia e os pais não podem assegurar que elas obedecerão às ordens dos pais. Nem sempre é possível anularmos a CF e PoA. Neste caso se faz necessário reforçar às Diffs.

Na figura 3 é mostrada a ontologia completa do método FAIR para análise de riscos domésticos.

Figura 3 – Ontologia FAIR na análise de Riscos Domésticos

A definição de Loss Event Frequency (LEF), segundo o FAIR é ” a frequência provável em um determinado período de tempo, que uma perda se concretizará pela ação de uma ameaça”. No cenário de riscos de acidentes domésticos, a perda seria o acidente em questão, que pode ser um ferimento ou um trauma, ou até nos casos mais severo a perda de uma vida.

No vídeo abaixo, observem se conseguem identificar a Vulnerabilidade, Diff TCap.

https://www.youtube.com/watch?v=-kyBMGTKCPw&feature=emb_logo

Vídeo 1 – Precaução de acidentes domésticos

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Riscos de acidentes domésticos aumentam consideravelmente em períodos de isolamento social, uma vez que adultos e crianças estão em casa mais tempo e vai de encontro com a definição do TEF, uma vez que se houver agentes de ameaças e vulnerabilidades no ambiente residencial. E durante a semana, quando os pais estão trabalhando remotamente, o tempo de supervisão das crianças diminui, e estas ficam mais expostas.

O método utilizado na análise de riscos domésticos foi o FAIR (Factor Analysis Information Risk), porém, há outras formas de realizar análises. Não quer dizer que uma seja certa e outras estejam certas. É como um canivete suíço, você tem metodologias a serem aplicadas, pode pegar aquela que julgue ser mais adequada para o cenário que está analisando ou pegar pedaços de alguns métodos que se complementem para realizar a análise.

O FAIR foi concebido para analisar riscos da área de Cyber Security, porém, se bem entendido sua metodologia e ontologia, ela pode ser empregada em qualquer análise de risco, e nos faz pensar além de uma simples análise de probabilidade e impacto.

Aos que desejarem saber mais sobre o método FAIR, sugiro a leitura do artigo “Gestão de Risco além da Probabilidade e Impacto“.

 

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